A última chama

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Prof.º Hamilton Fernandes de Souza

Um dia ensolarado. Passos firmes. Segue um índio que prefiro não dizer o seu nome, leitor, visto que não importa, já que ele será um ilustre anônimo. Este personagem está vestido com uma roupa simples, um saco nas costas, alpercatas. Ele representará o Brasil numa reunião de cúpula para discutir um assunto importante: a biodiversidade. O nosso personagem, como já disse, é um índio da tribo Pataxó, mas é estudado, conhece a ciência, mas também, mantém viva a tradição.

O nosso herói entra no saguão principal. Ele senta-se numa cadeira em que estava escrito BRAZIL. Um chefe de estado americano, com o dedo impertativo, aponta os fones de ouvidos, já que haveria tradução simultânea. O nosso personagem ficou intrigado com tanta gente e um só objetivo: salvar o planeta.

Deu-se início ao trabalho. Inicialmente, veio um representante do Japão apresentar um projeto muito interessante sobre a preservação das espécies no Pacífico. No momento em que falava, o nosso personagem pensou “Engraçado… Não é o Japão que faz caças ilegais aos golfinhos, baleias e procura afundar os barcos do Greenpeace“? O representante japonês saiu ovacionado.

A seguir, veio um representante chinês que apresentou o seu projeto maravilhoso que recuperou a cidade de Pequim, na época dos Jogos Olímpicos. Foi uma iniciativa que diminuiu a poluição. O nosso personagem ficou intrigado “Apesar dos esforços, ainda tem muito o que fazer na China, já que é o segundo maior país que polui a camada de ozônio, perdendo justamente para o próximo palestrante. O americano do dedo imperativo, lembra?

Seguiram-se várias apresentações: o Irã, que está aprimorando as bombas nucleares, juntamente com Bangladesh, Índia, Coréia do Norte, na Nigéria, Burkina Faso, Congo a caça indiscriminada de elefantes, gorilas, onças. Sobre os gorilas temos o pioneirismo de Diane Fossey. Todas as falas são belas. todos estão muito preocupados com o planeta. Apresentam as consequências de o homem continuar ignorando a natureza e os seus apelos. Muitos citaram as enchentes, variações de temperaturas, extinção dos animais e comércio de animais silvestres. Neste último assunto, o nosso herói ficou bem encolhido, já que o nosso país tem muita tradição neste assunto. Mas deixemos isto de lado.

Após todas as preleções, o presidente de honra observou qu o nosso representante não havia falado. Faltava pouco tempo para os debates e ele ainda não havia se pronunciado. Ao ser chamado no palanque, o nosso herói foi alvo de risos estridentes, pois muitos sequer haviam visto um índio.

O nosso herói seguiu firme nos seus passos e foi até o microfone. Começou a dizer que todos falaram “do rio que arrasta tudo e a todos e é violento, mas esquecem-se das margens que o comprimem”. Os risos começaram a diminuir… Nosso herói continua sua apresentação com uma frase do ídio Hamawt’a “O dia em que vocês envenenaram o último animal… quando não existirem nem flores, nem pássaros, se darão conta de que dinheiro não se come”. O silêncio instaura-se… Finaliza, o nosso herói com uma frase de Confúcio “Mas, por onde eu devia começar? O mundo é tão vasto, começarei com meu país, que é o que conheço melhor. Meu país, porém, é tão grande. Seria melhor começar com a minha cidade. Minha cidade também é tão grande. Seria melhor eu começar com minha rua. Não: minha casa. Não: Minha família. Não importa, começarei comigo mesmo”. Houve muitas palams e o nosso herói saiu muito satisfeito, passos largos. Pensou “fiz minha parte”. Quando estav fora do plenário, sentiu-se importante pela primeira vez. Começou a chover muito forte, quando de repente, um carro desgovernado o atropela em plena rua, quando estava atravessando. Voou como um pássaro e aterrissou no chão… um pé descalço, o saco que trazia, no chão. O corpo inerte. Ocarro foi-se. Muitos curiosos aproximaram-se. Uma senhora idosa aproximou-se, colocou o saco sob a cabeça e acendeu uma vela. A polícia técnica chegou juntamente com a ambulância. Retiraram o corpo do nosso herói, sem nome, mas com uma boa intenção. A chuva dispersara os curiosos. A vela apagou-se.

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